Quando as portas da percepção se abrem!


Perceber como os olhos de Deus se voltam para mim tem sido um sustento muito grande em meus dias. Sentir-me amado e querido faz com que eu queira continuar me abandonando na vontade d’Aquele que me olha sempre.

Por esses dias, em virtude das circunstâncias que estou vivenciando, tenho falado, ou melhor, testemunhado muito sobre a minha história para algumas pessoas que tem cruzado o meu caminho e mesmo para os meus irmãos de Comunidade (dentro do próprio meio fraterno). E tenho conseguido perceber o quando Deus tem cuidado de mim, preparando situações para o meu crescimento; e ainda que, inicialmente, eu não consiga perceber a sua vontade, deixo-me guiar pela sua graça.

Percebo que o caminho que o Senhor me tem feito percorrer (digo “tem sido” porque ainda não terminou) é um caminho rumo ao meu interior, um caminho de reeducação na sua vontade. A cada passo, Ele me faz mergulhar em mim, revestindo-me e guiando-me com a sua graça, porque sei que se não fosse assim, eu não conseguiria. Não suportaria ver o que vi (ou melhor, o que tenho visto) em mim, pois a cada dia tem sido uma nova descoberta. Posso até afirmar, como Santo Agostinho: “Entrei no meu íntimo sob tua guia e o consegui, porque tu te fizeste meu auxilio”.

É duro deparar-se com o lado negativo de si mesmo. Como já afirmava alguém muito especial: “Quando as portas da percepção se abrem, conseguimos ver as coisas como elas realmente são.” E esse abrir da percepção é um momento essencial na vida de qualquer cristão que queira trilhar um caminho de conversão verdadeira. Pois muitas vezes achamos que estamos no andar de cima..., mas quando a verdade aparece, percebemos que ainda faltam muitos degraus, que a escada é muito alta e que se a graça não vir em auxilio à fraqueza, não conseguiremos subir os altos degraus da santidade.

Só o humilde avançará, só quem se reconhece limitado pode se dispor a iniciar um caminho de total abandono nos braços do Pai. Foi assim com os santos e como muitos outros homens e mulheres que quiseram, para si, um caminho de sinceridade. O Senhor, meu guia, tem me feito perceber o quanto a minha vida precisa estar dobrada diante d’Ele, pois só Ele pode me ajudar a ser o que ainda não sou.

Este caminho rumo ao meu interior me fez perceber as marcas existentes em minha história, feridas que somente um Amor-Misericórdia como o de Deus pode curar. Tais feridas, às vezes, travam-me no ser filho, irmão, pai, servo, amigo. Sei que Ele quer para mim uma vida em abundância em todos os níveis, e creio que tudo isso se manifesta quando transmito em meus atos a minha semelhança com Ele.

A vivência me faz perceber o que preciso ser, o quanto Ele acredita em mim, que não me faria andar por esses caminhos se não tivesse um propósito de cura (primeiramente do meu orgulho), ensinando-me que não preciso ser “perfeito” para permanecer na sua presença, mas aprender a dizer - como Santa Teresinha - com profundo reconhecimento: “O amor é tão poderoso em obras que tira proveito de tudo que existe em mim.” Entendo que a mudança tem que começar por dentro, mudar o exterior é muito fácil, mas lapidar o interior leva tempo, requer cuidado, delicadeza, paciência, e só alguém que consegue ver o interior pode fazer tal mudança.

Olhar para a minha história tão marcada por traumas, ausências e inseguranças, faz-me perceber o quanto Deus é poderoso, pois quando vejo aonde eu cheguei, posso dizer, com toda certeza, que milagres acontecem! O Senhor cuida em tratar daqueles que Ele escolheu para o seu Reino. Irmãos, se o Senhor põe os olhos em nós, acreditemos que seu amor tudo fará em nosso favor. Se as portas da percepção se abrem, não é para que nos convençamos de que o mal que em nós habita é maior que a graça, mas como nos diz a própria palavra, O que está em nós é maior do que o que adquirimos no mundo. Quando as feridas chegaram, Ele já estava!

Uma vez Jesus dizia a São Padre Pio: “Nenhum mal há de prevalecer sobre aqueles que gemem aos pés da cruz de Cristo”. Muitas vezes o mal nos tocará, mas se recorremos à graça, que já foi ministrada no calvário, seremos sarados, curados, livres, pois foi para a liberdade que o Filho nos libertou. E muitas vezes é isso que acaba acontecendo, os nossos limites nos limitam, impedindo-nos de ser aquilo para o qual fomos criados: para a liberdade! Este amor, de fato, liberta, faz nova todas as coisas, reconstrói, salva.

Diante de tantas coisas, considero-me um homem muito amado, pois bem sei que Aquele que me segurou pela mão me conduzirá até o fim. Digo como São Paulo: “Eu sei em quem eu coloquei a minha fé.”

Ter consciência dos meus limites me faz uma pessoa mais sincera comigo, com Deus e com os que me cercam. Minha oração se tornou mais sincera! Tenho aprendido que não posso tudo, que devo recuar sem muitos constrangimentos, assim também como avançar, apoiando-me na graça.

Olhando para Deus, e para mim, creio num amor que não impõe limites, que é mais forte do que a morte, amor esse que toca o que ninguém quer mais tocar, que sana as feridas mais profundas. Ver, como eu dizia, os próprios limites não é tão agradável, mas quem é perfeito?

Ele sabia do que éramos feitos e, mesmo assim, quis contar conosco, chamou-nos para que compreendêssemos que podemos ir muito mais além do que pensávamos, que diante do seu amor nossos limites são um nada. Resgatou-nos para fazer ressurgir o que o pecado havia devastado, ou seja, a nossa capacidade de viver como filhos seus. E é esta experiência que tenho vivido na vida fraterna e na missão: a cada passo que dou, sinto que sou capaz de desprender-me desse chão, que posso voar. Quando olho para Jesus, posso me ver; contemplo n’Ele o mais natural de mim. E percebo como me deixei enganar pelo pecado, que me fez acreditar (falsamente) que nada do que via n’Ele era possível a mim. Sou filho do céu, dentro de mim habita o mesmo Espírito que n’Ele habita. Portanto, como filho, posso sim assumir a semelhança própria do Pai.

As portas da percepção se abriram quando a Cruz foi levantada e muitos disseram: “Ele realmente era o Filho de Deus!”. Aleluia! A cruz também se levantou sobre mim e, assim, vi-me capaz de viver como o Filho. Percebi, também, que muito mais do que o pecado, um amor abundante habitava em mim. Um amor capaz de me fazer vencer. Quando as portas da percepção se abriram, descobri uma força, um amigo chamado Espírito Santo, o Educador das almas, Paraclito, defensor dos amigos de Deus. Hoje, estou aqui, impulsionado por essa força que me faz crer que, com Cristo, eu sou mais que vencedor.

As portas da percepção se abriram e me vejo amado, capaz de reconstruir, de recomeçar movido por este amor. Ser Crux Sacra é, para mim, esta oportunidade que encontro (por meio da missão e da fraternidade) de deixar crescer em mim os sentimentos do Filho; uma mudança que deve partir do interior. Quando desci, pensei que estava só, mas O encontrei. Perguntei por que não me ajudou, mas Ele me disse que precisava da minha permissão. Disse-me que, enquanto eu não cresse, Ele não poderia me tirar desse escuro. Então, sem demora, falei: “Toma o teu lugar!”. A Bíblia fala, em Ezequiel 37, de um forte vento que trazia vida para um monte de ossos secos espalhados em uma planície, transformando-os numa multidão que adorava e servia a Deus. Também pude sentir, desde então, esse vento soprar em mim trazendo ressurreição.

As coisas que tenho conseguido enxergar nesse tempo me fazem crer, continuar, esperar.

Quando as portas da percepção se abrem, o que nos resta é entregar a nossa vida Aquele que nos criou. Ele sabe o que está fora do lugar e, com certeza, porque muito nos ama, fará os ajustes necessários para que sejamos aquilo que Ele deseja. Como estaremos sempre em acabamento, precisamos dizer como o salmista: “Completai em mim a obra começada. Não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos!”(Sal 137).

Quero encorajar você, em tua caminhada cristã, a fazer este caminho de descida e de encontro com um amor que não nos abandona, mesmo tendo todas as razões para isso; um amor que ama o não-amável. Ele não encobre os nossos defeitos, mas nos deixa conscientes deles para que percebamos que o amor ministrado na cruz foi gratuito, livre e sem interesses.

Desejo para todos vocês esse encontro com o Educador das almas. Que Ele vos conduza rumo ao vosso interior, lugar onde - mesmo escuro - habita uma grande luz: Jesus de Nazaré.

Paz e bem!


Por Jair José
(Formador da Comunidade Crux Sacra)